Um território em regeneração.

Regenerar uma paisagem é, antes de tudo, reconhecer o que nela vive. Qualquer processo de design regenerativo começa com observação, não com a imposição de um desenho técnico sobre o território. 

Desde 2019, o trabalho do Idanha-à-Vida desenvolve-se na paisagem envolvente da aldeia de Idanha-a-Velha, na Beira Baixa, num território com cerca de 1600 hectares. Um lugar vasto e diverso, marcado por camadas ecológicas e humanas erodidas mas que não desapareceram. 

Antes de propor qualquer intervenção, foi necessário compreender o carácter deste lugar, não apenas as suas características geo-biológicas (a geologia, as linhas de água, os solos empobrecidos/compactados, os núcleos de flora e fauna autóctone que persistem) mas também o impacto da presença humana através da agricultura, os eucaliptais introduzidos mais recentemente, a cultura local, a memória das práticas, as formas como este território já se organizou e renovou ao longo do tempo.

Fazer design regenerativo não significa criar uma nova paisagem. Significa reconhecer a sua bio-culturalidade única, aquilo que lhe dá identidade própria, e perceber como esse potencial pode voltar a expressar-se de forma mais saudável e integrada.

A história longa deste lugar, ecológica, cultural e humana, continua presente, mesmo quando menos visível. O design regenerativo assume, por isso, uma postura de cocriação com o território, onde as decisões procuram escutar e amplificar a sua capacidade de renovação.

O que está a ser desenhado não é uma imagem final controlada, mas um sistema de relações. Um território organizado em três zonas interligadas, que não funcionam como compartimentos isolados, mas como partes de um todo vivo.

A zona natural foca-se em observar, proteger e apoiar a regeneração dos processos ecológicos que já sustentam a paisagem: recuperação de habitats, regeneração da vegetação autóctone, melhoria da retenção e infiltração de água. Aqui, a prioridade é devolver estabilidade e resiliência aos processos naturais, de forma a que a biodiversidade se fortaleça e que o território se torne mais adaptável e resiliente às variações climáticas.

A zona combinada aproxima produção e ecologia. A prática de agricultura regenerativa, agro-silvicultura e pastoreio rotativo podem regenerar o solo enquanto produzem valor económico. Não se procura equilibrar dois lados opostos, mas integrá-los, sabendo que a produção pode desempenhar um papel ativo na saúde do ecossistema quando alinhada com os seus padrões naturais e com métodos regenerativos. 

A zona económica integra atividades sociais, culturais e produtivas que dão suporte à comunidade e criam valor local. Partimos da premissa que regeneração de paisagem envolve não apenas a natureza mas também relações, oportunidades e formas de participação.

A dimensão social deste trabalho parte do reconhecimento de que uma paisagem regenerada não é real sem as pessoas que a habitam, cuidam e compreendem. Neste território, marcado pelo despovoamento rural e pela fragmentação das relações comunitárias, regenerar é também reconstruir vínculos entre vizinhos, gerações, quem trabalha a terra e quem chega para aprender com ela. Através de voluntariado, dias abertos, participação comunitária e processos de escuta, estamos a criar um envolvimento gradual e consciente com o território, onde a presença humana deixa de ser apenas utilizadora da paisagem e passa a ser parte ativa do seu cuidado e continuidade.

A dimensão cultural surge como uma extensão natural da paisagem bio-cultural que já existe em Idanha-a-Velha e na sua envolvente. Não se trata de introduzir uma nova identidade cultural, mas de recuperar e valorizar práticas, saberes locais, ritmos sazonais e formas de relação com o território que foram sendo construídas ao longo do tempo. O projeto cultural, momentos de encontro e iniciativas socioculturais funcionam como espaços de memória viva e criação contemporânea, imprescindível à ligação entre regeneração ecológica e revitalização da vida local. Desta forma, a cultura emerge naturalmente da integração de ecologia, comunidade e território neste processo regenerativo.

Este desenho é um processo contínuo de escuta e cocriação, desenvolvem-se modelos de governança colaborativa e aprendizagem adaptativa, reconhecendo que um território desta dimensão não se transforma através de soluções fixas, mas através de processos evolutivos.

No terreno, isso traduz-se em decisões concretas. Na zona norte do Idanha-à-Vida, o Barrocal, onde a água é a principal dinâmica ecológica, a recuperação das linhas de água e a gestão da vegetação tem sido a primeira grande intervenção, considerando a importância geográfica deste território: é aqui que entra água para o resto do Idanha-à-Vida. Em áreas de transição de eucaliptal, optou-se por processos graduais: manter matéria orgânica no solo, reduzir perturbações intensivas e permitir que azinheiras, sobreiros e arbustos autóctones reapareçam naturalmente sempre que possível com ajuda dos eucaliptos, que captam água mais profunda e fazem sombra à vegetação emergente.

O design regenerativo articula água, solo e floresta como dimensões inseparáveis. A saúde do solo influencia a infiltração de água; a água determina a vitalidade da vegetação; a estrutura florestal regula microclimas e resistência ao fogo. Cada decisão é tomada considerando não apenas o local imediato, mas o sistema maior em que ele se insere.

Mais do que executar intervenções, o projeto procura assumir um papel claro neste território: contribuir para que este lugar se renove e possa gerar valor ecológico, social e cultural de forma contínua. O potencial de um projeto manifesta-se quando ajuda o território a desempenhar melhor o seu próprio papel dentro do sistema mais amplo em que vive.

É por isso que este trabalho tem um horizonte de 25 anos ou mais. Porque regenerar não é produzir resultados rápidos, mas criar condições para que processos vivos se reorganizem e se estabeleçam ao longo do tempo. Exige paciência, coerência e intenção partilhada.

Fazer design regenerativo da paisagem, aqui, é trabalhar com o que já existe, não apenas com o que é visível, mas com o que é possível. É reconhecer a essência deste território e criar condições para que se expresse plenamente, fortalecendo a sua capacidade de evoluir de forma integrada e resiliente, a partir do seu próprio potencial.