Começar pela Água
Num território com cerca de 1600 hectares, o processo de regeneração exige uma abordagem gradual e estratégica. Começar pela recuperação do ciclo da água foi um dos primeiros passos e tornou-se um dos pilares do Idanha-à-Vida, dando origem a um dos mantras da equipa de campo: água, solo e biodiversidade.
Ao abrandar a água e permitir que esta se infiltre no solo, cria-se a base para múltiplos processos regenerativos: a melhoria da fertilidade do solo, o desenvolvimento futuro de práticas agrícolas regenerativas, o regresso da floresta autóctone e o aumento da biodiversidade.
Mais do que armazenar água, trata-se de devolver à paisagem a sua capacidade de a reter e distribuir, permitindo que se regenere naturalmente. E, passo a passo, começar a inverter um processo de desertificação que levou décadas a instalar-se.
Esta zona do país é marcada por grandes amplitudes térmicas e por um clima que alterna entre uma estação seca e uma chuvosa, sendo que ambas tendem a chegar a extremos. Em Idanha-a-Velha, a escassez de água durante os meses mais quentes contrasta com períodos de precipitação intensa no inverno. Estando o solo degradado ou compactado, essa água não se infiltra: corre rapidamente pela superfície, arrastando solo, nutrientes e matéria orgânica. Ao longo do tempo, este processo cria ravinas de erosão e acelera a perda de fertilidade da paisagem.
Este contexto é agravado por décadas de abandono agrícola, pela intensificação das alterações climáticas e pela diminuição do caudal na bacia do Tejo após a construção da barragem de Cedillo nos anos 70. Recuperar as linhas de água tornou-se, por isso, um dos primeiros passos, e dos mais importantes, do trabalho regenerativo.
Linhas de água e memória da paisagem
Após analisar as características da paisagem, a equipa deu início às intervenções na zona norte da propriedade, um dos principais pontos de entrada de água no território, que é atravessado por uma rede de linhas de água, incluindo ribeiras sazonais, nascentes, charcas e o rio Ponsul. Muitas permanecem ativas, mas degradadas ou ocultas por vegetação densa. Noutros casos, o solo compactado impede a infiltração, fazendo com que a água escorra à superfície e intensifique a erosão. Recuperar estas linhas de água é, por isso, devolver ao território parte da sua capacidade funcional.
O trabalho baseia-se em princípios de hidrologia regenerativa, combinando observação direta do território com conhecimento tradicional. A leitura da paisagem, especialmente após a época de chuva, permite identificar onde a água acelera, onde erode e onde pode e deve ser retida.
A partir daí, têm sido implementadas intervenções de pequena escala, distribuídas pelo território, com um objetivo central: abrandar a água e aumentar a sua infiltração no solo.
Entre as intervenções incluem-se pequenas barragens em linhas de água, linhas de infiltração em curvas de nível, modelação do terreno para criação de charcas, plantação de vegetação ripícola e redirecionamento da água dos caminhos para canais laterais para evitar erosão e permitir a sua infiltração no solo.
Na área queimada no incêndio do verão de 2025, as retenções de água serviram não só para reduzir a erosão mas também para reter os nutrientes das cinzas da vegetação queimada.
Estas soluções utilizam maioritariamente materiais locais, como pedras, troncos e matéria orgânica, permitindo uma integração natural na paisagem. Grande parte do trabalho tem sido realizado pela equipa de campo, com o apoio de voluntários, sem recorrer a maquinaria de grande porte.
O que já foi feito
Até ao momento foram realizadas cerca de oito intervenções em diferentes pontos da propriedade, focadas sobretudo em linhas de água com sinais evidentes de degradação e erosão.
Os trabalhos concentraram-se em zonas onde a água escorria com demasiada velocidade, criando ravinas e arrastando solo e nutrientes, bem como na área queimada, onde a vulnerabilidade do terreno era maior. Numa linha de água desta zona queimada foi possível recuperar uma nascente que se encontrava oculta por vegetação densa.
O projeto encontra-se atualmente numa fase de implementação, em contínua observação e monitorização.
Primeiros sinais de regeneração
Apesar de recente, o trabalho já revela sinais encorajadores. Após a época de chuva, observa-se maior retenção de água, aumento da humidade do solo e melhoria da sua estrutura, tornando-se mais esponjoso e capaz de infiltrar.
Também surgem sinais de regeneração ecológica: prolongamento da humidade do solo até mais tarde no ano, surgimento de vegetação espontânea e expansão da flora ripícola até cerca de um metro da linha de água e presença crescente de fauna. Em várias zonas foram já observados anfíbios e insectos anfibióticos, bem como a expansão de juncos (juncus effusus), que são bons indicadores da gradual recuperação dos habitats.
Mais do que resultados imediatos, este trabalho exige tempo, observação e continuidade. Cada intervenção torna-se também uma forma de aprender com o território, compreender como a água se move e como a paisagem responde. O envolvimento direto no terreno tem sido também uma forma de aprofundar a relação com o território, onde o conhecimento não é apenas transmitido, mas vivido através da prática.
Recuperar a água na paisagem é, em última análise, reativar os processos que sustentam a vida e criar condições para que o território se regenere a partir do seu próprio potencial.